Perfis Laicais: JACKSON DE FIGUEIREDO (1891-1928)

Temos a alegria de apresentar, na Série Perfis Laicais, a figura de Jackson de Figueiredo, intelectual do início do Século XX, filho da Terra de Santa Cruz. A biblioteca do Centro Schuman recebeu o seu nome, em um ato simples de homenagem a este brasileiro, personalidade exemplar para todos nós.

Jackson de Figueiredo *
Jackson de Figueiredo Martins é destes sujeitos que deixam sua marca na história. Convém, aqui, ver como o catolicismo no Brasil foi influente e impactante no período em que esteve vivo e à frente do seu legado: o Centro Dom Vital.


Nasceu em Aracaju, Sergipe no dia 09 de outubro de 1891. Iniciou seus primeiro estudos no Ateneu Sergipense e no Ginásio Alagoano. Com desejo de estudar Direito, transfere-se em 1913 para a Bahia, onde ingressa na Faculdade de Direito da Bahia. Sua graduação foi um período de aridez espiritual. Logo após concluir o curso, segue para o Rio de Janeiro a fim de fazer sua carreira profissional. Era dotado de uma inteligência impressionante, foi jornalista, ensaísta, filósofo e polí­tico. Foi nesta cidade, reduto do catolicismo intelectual da época, que publicou seu primeiro livro, “Algumas Reflexões Sobre a Filosofia Farias Brito, em 1916. A esta seguiram-se várias obras, dentre as quais: A Questão So­cial na Filosofia de Farias Brito (1919);  Humilhados e Luminosos (1921); Do Nacionalismo na Hora Presente (1921); Afirmações (1921); A Reação do Senso (1922); Pascal e a Inquietação Moderna (1922); Auta de Sousa  (1924); Literatura Reacionária (1924); A Coluna de Fogo (1925);  Durval de Morais e os Poe­tas de Nossa Senhora (1925).

Ao ter contato com a carta pastoral de Dom Sebastião Leme, em que o prelado critica duramente os católicos por sua inércia -  “Que maioria católica é essa, tão insensível, quando leis, governos, literatura, escolas, imprensa, indústria, comércio e todas as demais funções da vida nacional se revelam contrárias ou alheias aos princípios e práticas do catolicismo? É evidente, pois, que, apesar de sermos a maioria absoluta do Brasil, como nação, não temos e não vivemos vida católica. Quer dizer: somos uma maioria que não cumpre seus deveres sociais. Obliterados em nossa consciência os deveres religiosos e sociais, chegamos ao abuso máximo de formarmos uma grande força nacional, mas uma força que não atua e não influi, uma força inerte. Somos, pois, uma maioria ineficiente.” - Jackson procurou-o no palácio São Joaquim, tendo recebido o Sacramento da Confissão dias depois.

Com uma personalidade de liderança e hábil facilidade para reunir amizades para uma causa, fundou a revista “A Ordem” em 1921, e, logo em seguida, em 1922, o Centro Dom Vital, centro irradiador do pensamento católico no Brasil que marcou profundamente e fez sentir a força dos católicos nas décadas seguintes.

Este centro congregou diversas personalidades do catolicismo e foi fundamental para a conversão de vários intelectuais, políticos, entre outros. Participaram dele pessoas como Alceu Amoroso Lima, que foi, depois da morte de Jackson, o presidente do Centro; Gustavo Corção; Felício dos Santos, Perilo Gomes; Pedro Calmon, só para citar alguns.

Jakson de Figueiredo influenciou e impactou a vida de todos os que o conheceram. Alceu Amoroso Lima escreveu a seu respeito: “Jackson foi um terremoto. Um terremoto espiritual nesta velha e dura terra da indiferença religiosa nacional. O que exercia sobre Jackson uma atração patética no velho mundo era a seriedade, a gravidade, a tragicidade de sua indagação metafísica religiosa.”

Dom Sebastião Leme escreveu que “como bispo e amigo, aqui estou a aplaudi-lo e abençoá-lo.” E afirmava que “O Brasil católico – e poderia dizer, simplesmente, ‘o Brasil’ – não tem o direito de esquecer os exemplos e os esforços de Jackson de Figueiredo.” Sobre sua fé escreveu que “era católico sincero, convicto, fervoroso e dedicado até o sacrifício da vida, se preciso fosse.”

O Padre Leonel Franca escreveu a respeito dele: “Jackson não teve a felicidade de passar os primeiros anos à sombra da Igreja. O seu temperamento, ardente e indomável, sentira sempre os percalços desta lacuna da sua educação. Mas a Providência divina, nos seus eleitos, transforma em fontes de bem deficiências da providência humana. A entrada na Igreja foi para ele uma luta, uma conquista, uma vitória pacificadora. Inquieto dos seus subjetivismos filosóficos, insatisfeito dos seus individualismos sociais, o encontro com o catolicismo foi para a sua grande inteligência uma revelação, o descobrimento de uma novidade. Era a visão inesperada da verdade, da ordem, da paz, da valorização completa do homem. A sua alma sincera não resistiu à humanidade: ‘Eu sou a Verdade e a Vida’. A nobreza do seu caráter, repugnavam as generosidades incompletas. Convertido, colocou ao serviço da fé todas as riquezas de uma natureza excepcionalmente bem dotada.”

Jackson faleceu aos 37 anos, no dia 04 de novembro de 1928, ao pescar com seu filho e um amigo na capital carioca. Caiu acidentalmente no mar e levado pelas águas lutou bravamente por minutos contra as ondas. Seu olhar mirava seu filho, que angustiado chorava por ele impossibilitado de fazer algo. A água, que  nos insere no grêmio da Igreja através do Batismo, foi a que o levou à eternidade. Proféticas foram suas palavras: “É raro que a morte não confirme, de modo ostensivo, o valor de cada vida.” Em um poema sob título Águas Jackson escreveu: “Eu tenho a paixão das águas; gosto de olhá-las, compara-lás, vê-las através de minha imaginação que elas exaltam, as águas refletidoras de tudo, tão boas e tão tristes.”

Por ocasião de seu falecimento, disse o Pe. Leonel Franca: “Com o desaparecimento de Jackson de Figueiredo acaba de extinguir-se no firmamento da Igreja brasileira, uma das estrelas de mais puro fulgir.”

Sobre ele, há vários artigos na revista A Ordem e no livro In Memoriam, publicados pelo Centro Dom Vital, o último dedicado ao resgate de sua memória. Também deve-se mencionar a riquíssima biografia escrita por sua filha Cléa Alves de Figueiredo Fernandes, intitulada “Jackson de Figueiredo: uma trajetória apaixonada”.

 * Nota biográfica por Camila Favaro e Diego Guilherme da Silva, membros do Centro Schuman.



           CARTA DE JACKSON A ALCEU 

Rio, 22/23-2-28

Querido Alceu!
           
Já aqui estou , de volta do retiro em Friburgo. Mais contente com Deus, mais descontente comigo, mais tranqüilo com a consciência, mais desconfiado do coração.
           
Enfim, está é a verdade: não noção vital do que é a Igreja (e até do que vale a sua força meramente discursiva) sem mergulhar-se num retiro. E depois, como não se lucra na perda de ilusões sobre nós mesmos! Porque não é brinquedo debruçar-se a gente durante três dias e três noites sobre a própria miséria interior.

Eu, pelo menos, ganhei isto: a certeza, desta vez, de que só do sobrenatural posso esperar solução do meu caso psicológico – pobre estragado por tantas perversidades do mundo. De mim mesmo é impossível. O mais que eu próprio poderei fazer em bem de mim mesmo é manter-me, como até agora, em atitude agressiva contra tudo quanto, em mim, me pareça amável, delicado, anuançado, propriamente lírico.

            Entreguei o seu livro ao velho Madureira, figura de santo.
            Com o Franca conversei muito sobre você.
            Estamos, pois, de novo, face a face.
            Adeus, meu querido Alceu!
            Um abraço do seu velho,
            Jackson

 CARTA de Jackson de Figueiredo a Alceu Amoroso Lima. A Ordem, Rio de janeiro, v. 32, n. 48, p. 243, jul./dez. 1952







ATUALIDADE DE JACKSON DE FIGUEIREDO 


Há trinta anos, no dia 4 de novembro, falecia tragicamente Jackson de Figueiredo. Lembro-me ainda das palavras de D. Sebastião Leme ao tomar conhecimento da morte do seu grande amigo: “foi um herói cristão”.


Sim, Jackson de Figueiredo foi um herói cristão. Foi um herói ma sua árdua luta contra o farisaísmo católico, na sua renúncia ao conforto, na sua dedicação à causa que abraçou com entusiasmo – a recristianização da inteligência brasileira.


Para a realização do seu objetivo fundou esta revista [A Ordem] , em 1921, e no ano seguinte o Centro D. Vital.


Autodidata, escreveu aos vinte anos as suas “Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito”, obra única no Brasil pelo vigor de expressão e pela audácia do pensamento.


A importância desse livro de Jackson de Figueiredo foi assinalada na época em que foi publicado por Nestor Victor. O ilustre crítico paranaense pressentiu na confissão espiritualista do jovem escrito, o cristão autêntico que iria mais tarde iniciar no Brasil a renovação do pensamento católico.


Uma leitura meditada das obras de Jackson de Figueiredo mostra-nos a identidade das suas idéias com as idéias das correntes filosóficas mais atuais nesta hora incerta e amarga que o mundo atravessa.


Jackson foi, sem saber um dos precursores, no Brasil, da filosofia existencial. Não tendo conhecido Kierkegaard, a sua obra, no entanto, está no plano kierkegaardiano. Nela, sobretudo nas “Reflexões sobre Filosofia de Farias Brito” e em “Pascal e a Inquietação Moderna” verifica-se que o pensamento da vida é dominado pelo primado da vida realmente vivida.


No seu diário íntimo encontra-se esta expressão: “a vida é mais forte que a mais forte das filosofias”.


[...]

No plano religioso Jackson de Figueiredo foi essencialmente um homem de ação, um soldado de Cristo. Repugnava-lhe o indiferentismo religioso, o catolicismo amorfo e sem vida. Daí seu entusiasmo por D. Vital. “Coluna de Fogo” e “Afirmações” expressam o seu horror à confusão ou a “extralimitação das coisas no mundo moral”, como costumava dizer. Havia necessidade de distinções e de definições. Como Kierkegaard, era uma “espécie de policial da eternidade.” O catolicismo, para ele é vida, e testemunho. Não suportava qualquer espécie de hipocrisia. Para ele, maior valor tinha um positivista convicto e sincero do que um católico fazendo concessões ao erro. Deixou-nos há trinta anos, em plena mocidade. Parece que foi ontem. Os seus olhos claros, que deixavam transparecer a luminosidade da sua grande alma, continuam a contemplar-nos.


A obra que iniciou foi continuada pelos seus amigos. A sua memória perdura em quantos o conheceram e amavam. As suas idéias e o seu exemplo fizeram crescer o rebanho do Senhor.


NOGUEIRA, Hamilton. Atualidade de Jackson de Figueiredo: A Ordem, Rio de Janeiro, v. 60, n. 5, p. 337-339, nov. 1958.


ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO


Carlos Drummond de Andrade
Belo Horizonte, 1929
Jackson
nem amigo nem inimigo,
nem mesmo (o que seria cômodo) espectador displicente na sua [poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,
mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,
mais distante ainda dos mundos que explorastes, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los, e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,
aqui estou, testemunha depondo.

Jackson,
os que te conheceram e te amaram
os que te conheceram e não te amaram
os que não tiveram tempo de te amar,
os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististes, estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.
Outros , o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.
Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.
Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus Jackson,
e eu sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.

Voltou o tempo dos prodígios.
Ainda há pescas maravilhosas, eu sei.
E os peixes que arrebatastes a um mar mais crespo que o de Tiberíades

Estão cantando a glória do Senhor.
Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas
elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu
e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,
que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar, enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.

Agora sentimos que estás mais perto de nós,
Que por obscuros caminhos nós chegamos mais a ti,
(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano pesca terrível e prodigiosa de amor e redenção.

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Ode a Jackson de Figueiredo.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 9, n.4, p. 150-151, dez. 1929.